sábado, 22 de fevereiro de 2014

Cultivar nativas ou exóticas? Como essa escolha afeta as aves?


Efeito dómino no jardim.Arte por David Pendleton.



 Quando visito um amigo sempre ganho uma muda de alguma planta, assim posso dizer que meu jardim é pessoal e guarda muitas histórias e lembranças. Mas, ultimamente ando muito preocupada com que planto no meu jardim. Por quê? Por causa da biodiversidade. As plantas que uso no meu jardim podem alterar a biodiversidade da minha região, criando um efeito dominó, levando a redução de populações tanto de animais quanto de plantas e contribuindo para a extinção desses organismos.

Exóticas versus nativas  
Porque estamos acostumados a ver determinadas plantas em jardins locais, não quer dizer que elas são nativas. Nós plantamos em nosso jardins muitas plantas exóticas, isto é, que não ocorrem naturalmente em nossa região, a maioria são oriundas da Ásia, Europa ou África. A hortênsia ( Hydrangea macrophylla), por exemplo, é uma planta nativa do Japão e China, onde ela ocorre naturalmente. Aqui no Brasil ela é uma planta exótica. Nós escolhemos essas plantas geralmente por causa de sua beleza e disponibilidade. Mas, nunca pensamos o quanto elas podem afetar outros organismos. Até agora.

Plantas que fogem do jardim 

Algumas plantas ornamentais exóticas podem ser também invasores e são um grande problema para os conservacionistas ( para saber mais sobre invasoras leia também 'Plantas que fogem do jardim' no blog Ciência no Jardim). Um exemplo de uma planta ornamental exótica e invasora que tem dado muito dor de cabeça é o beijo-do-brejo (Hedychium coronarium). Plantas invasoras tem recebido grande atenção por causa do seu impacto sobre as plantas nativas e animais, ao contrário das plantas ornamentais exóticas não invasoras. Entretanto, isso tem mudado nos últimos anos. Agora estamos também interessados em saber que efeito os jardins formados por plantas exóticas tem sobre nossa biodiversidade. E o que descobrimos foi uma sucessão de problemas.

Plantas e insetos, as primeiras peças começam a cair  

No nosso jardim devemos encontrar um grande número de insetos. Se você não está encontrando insetos no seu jardim, isso deve deixá-lo preocupado e não feliz. A maioria dos insetos herbívoros podem reproduzir com sucesso, somente sobre plantas que eles tem compartilhado uma história evolutiva. Com raras exceções, insetos herbívoros não podem adaptar-se rapidamente a novas plantas. Isso porquê os insetos herbívoros não conseguem desenvolver adaptações fisiológicas instantâneas para conseguir comer determinadas plantas sem passar mal ou morrer com isso. Borboletas, por exemplo, colocam seus ovos em plantas ou grupo de plantas que reconhecem quimicamente e as larvas que nascem desses ovos alimentam-se exclusivamente dessas plantas, escolhida pela mãe-borboleta. Algumas ainda conseguem uma defesa química contra predadores. Se, essa planta ou grupo de plantas desaparecem do local, as borboletas não tem onde colocar os seus ovos e mesmo que as larvas nasçam elas não terão o que comer. Assim, a população irá reduzir ou mesmo desaparecer. Um bom exemplo e a borboleta monarca, que identifica e coloca ovos em plantas do gênero Asclepias, cujas folhas serão comidas pelas larvas que nascerão dos ovos e dão a monarca uma defesa química contra predadores. 

Sendo assim, é esperado que em jardins formados por plantas exóticas não tenham a mesma quantidade e diversidade de insetos como os jardins formados por plantas nativas. Pois os insetos nativos buscam aquelas plantas também nativas com as quais compartilharam uma mesma história evolutiva.

 Aves, derrubando mais peças  
Num jardim podemos encontrar muitas espécies de aves, principalmente insetívoras, ou seja, aquelas que comem insetos e mesmo frugívoros que tem na dieta de seus jovens proteínas vinda de insetos. Sem insetos o que essas aves irão comer? A redução de insetos pode ter importantes implicações sobre a conservação das aves. Retirando as espécies nativas de plantas e introduzindo espécies exóticas reduzimos as populações e espécies de insetos e por conseguinte de aves.

Este foi apenas um pequeno exemplo de como é intrincado as relações dos organismos que vivem nos jardins e as consequências da nossa interferência nessa cadeia. Muitas outras peças podem entrar nesse jogo como os anfibios ou até mesmo o solo e os microorganismos que nele vivem. Pense, por exemplo nos beija-flores, algumas espécies de beija-flores têm uma relação intricada com certas plantas, sem elas eles não sobrevivem. Nossa interferência pode ser muito maior do que está descrito nessas poucas linhas.

Além de favorecer os insetos, aves e outros animais nativos, as plantas nativas também estão melhor adaptadas para crescer no seu local de origem. Assim você terá menos problemas com pragas e doenças, o que significa menos gastos na manutenção do seu jardim. Pense nisso. Escolha as plantas nativas.
M. Eiterer



Versão original deste texto foi publicado no blog Ciência no Jardim.
Fonte
Burghardt, Karin T.; Tallamy, Douglas W. and Shriver, W. douglas. 2008. Impact of native plants on bird and butterfly biodiversity in suburban landscapes. Conservation biology, 23:219-224.

The New York botanical Garden. 2012. Bringing Nature Home: What You Can Do. disponível em <http://www.nybg.org/plant-talk/2012/02/wildlife/bringing-nature-home-what-you-can-do/>. Acesso em: 9/02/2012.
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O futuro da observação de aves

Observadores de Aves

Por Nicholas Lund

Há algum aspecto da vida humana ao qual ainda não tenha sido oferecida uma mãozinha intrometida da tecnologia? Há uma entorpecida esquerda ludista no planeta que não tenha sido forçada, de um jeito ou de outro, a recolher-se ao holofote frio da eficiência eletrônica? Pode ser que nós nunca saibamos com certeza (eles não respondem às minhas mensagens de correio eletrônico), mas o meu palpite é que naum.

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Por trás da beleza dos fogos de artifício

Fogos de artifício

Por séculos, as exibições pirotécnicas têm sido o ponto alto de celebrações realizadas em diferentes partes do mundo. A festa da passagem de ano na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, na noite desta terça-feira (31/12), deverá ser presenciada por 2,3 milhões de pessoas (ver matéria “Palcos do Réveillon de Copacabana recebem equipamentos; veja atrações“, publicada no portal G1, em 28/12). O grande clímax será o show de pirotecnia, envolvendo 24 toneladas de fogos de artifícios, distribuídos em 11 balsas por toda a orla, com uma duração estimada em 16 minutos. (A única coisa que poderia evitar isso, ao que parece, seria uma chuva forte.)
 
A festa adiciona 614 milhões de dólares (cerca de R$ 1,4 bilhão) à economia da cidade. Este ano, ironicamente, o tema será o filme de animação “Rio 2” (ver aqui), dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, cujos personagens centrais são um casal de ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii). Outras cidades do país também realizam shows de pirotecnia na passagem de ano, como é o caso de Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e São Paulo (ver o verbete “Ano-Novo“, na Wikipedia). Isso tudo, claro, sem falar de inúmeros brasileiros que gostam de soltar seus próprios rojões. É barulho pra todo lado.
 
Pirotecnia mortal
Uma exibição de pirotecnia é considerada uma perturbação antropogênica e seus impactos sobre a vida selvagem representam uma justificada preocupação em termos de biologia da conservação. Para as pessoas que presenciam ou assistem pela TV, a pirotecnia é comumente vista como um grande e belo espetáculo. Cabe registrar, no entanto, que o barulho alto e repentino e as luzes brilhantes produzidos pelos fogos de artifício são uma fonte de estresse para muitos animais, tanto domésticos como selvagens. Um exemplo familiar é comumente presenciado por quem tem um cão. Os animais ficam muito agitados com o barulho, tentando se esconder; muitos latem, uivam ou até mesmo urinam. Estudos têm comprovado o que os tutores desses aniamis já sabiam: fogos de artifício representam uma experiência traumática para os cães.
 
A repentina mortandade de milhares de pássaros-pretos-da-asa-vermelha (Agelaius phoeniceus; “red-winged blackbirds”, em inglês), na pequena cidade de Beebe, no estado de Arkansas (Estados Unidos), na véspera da passagem de ano, em 2010, atraiu a atenção da mídia (ver as matérias “For Arkansas blackbirds, the New Year never came“, de Campbell Robertson, publicada no The New York Times, em 3/1/2011; e “Fogo-de-artifício terá causado pânico e morte a milhares de aves no Arkansas“, de Helena Geraldes, publicada no Público, em 4/1/2011). Imagens de radar mostraram que, naquela noite, grupos numerosos de aves deixaram os seus poleiros no meio de uma noite chuvosa. Fogos de artifício assustaram e desorientaram as aves, muitas das quais morreram ao se chocar violentamente contra obstáculos. Sem essa repentina perturbação, elas provavelmente teriam permanecido em seus poleiros noturnos.
 
Na Holanda, usando um radar meteorológico, um estudo quantificou a reação das aves aos fogos de artifício durante a passagem do ano, em três anos consecutivos (ver aqui; para detalhes técnicos, ver SHAMOUN-BARANES et al. 2011). Milhares de aves saíram em dabandada pouco depois da meia-noite. Os bandos mais numerosos foram observados em áreas de pastagens e locais úmidos, incluindo áreas protegidas, onde milhares de aves aquáticas habitualmente descansam e se alimentam. Perturbações provocadas durante a época reprodutiva podem levar ao abandono de ninhos, deixando ovos e filhotes desprotegidos; isso eleva as taxas de mortalidade e contribui para uma redução nos efetivos populacionais.
 
Quem sabe, um dia...
Procurei aqui salientar o impacto dos fogos de artifício sobre as aves, mas outros animais, como baleias e peixes, também sofrem com esse mesmo tipo de perturbação. Isso para não falar nos impactos negativos sobre a saúde da população humana, incluindo poluição do ar, lesões físicas, auditivas, visuais e traumas.
Em alguns países, esses impactos já vêm sendo discutidos. Em função disso, pode-se pensar em locais mais apropriados para a realização dessas festas, assim como em uma redução na quantidade de fogos de artifício que são utilizados. Quem sabe, um dia, essa discussão chega até nós. E aí, então, poderemos nos dar conta da amplitude dos impactos negativos que as nossas “maravilhosas” festas de pirotecnia têm tido sobre a vida selvagem.
Feliz Ano Novo!
 
Referência citada
SHAMOUN-BARANES, J. & outros 5 coautores. 2011. Birds flee en mass from New Year’s Eve fireworks. Behavioral Ecology 22: 1173-7.
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